Qual é a real influência no Brasil? Orientações para empresas que querem seguir avançando, por Beatriz Santa Rita.
Nas últimos semanas fomos inundados por notícias sobre o retrocesso (backlash) da agenda de diversidade nos Estados Unidos. A posse do atual presidente norte-americano trouxe à tona uma série de decisões contra as iniciativas de diversidade, com grandes empresas anunciando a descontinuidade de programas e metas de inclusão nos EUA. Do outro lado, algumas empresas confirmaram reafirmaram seus compromissos com DE&I, incluindo a Apple. No entanto isso não está sendo noticiado na mesma proporção.
Mas e aqui no Brasil? Qual é a real influência das decisões estado-unidenses na agenda de diversidade e inclusão?
Para apoiar você a argumentar, orientar e se posicionar sobre este tema na sua organização ou esfera de influência profissional, escrevi este artigo em que compartilho com você minha percepção diante deste cenário.
Embora as primeiras iniciativas de diversidade e inclusão no Brasil tenham sido inspiradas por empresas norte-americanas na década de 1990, o país construiu um caminho próprio, com avanços significativos nos âmbitos legal e socioeconômico. Diferente dos EUA, onde a agenda de DE&I tem enfrentado retrocessos políticos recentes, o Brasil conta com uma regulamentação robusta que protege e promove a diversidade.
Confira algumas das leis e diretrizes que responsabilizam empresas pela diversidade e aspectos de inclusão de seus colaboradores:
“Além disso, o Brasil conta com um arcabouço legal robusto antidiscriminação, com a intenção de punir crimes como o racismo, a homofobia, a transfobia, assédios, entre outras discriminações.”
Sim! Diferente do atual cenário dos Estados Unidos, aqui no Brasil o Supremo Tribunal Federal, em votação unânime em 2012, reconheceu que as cotas raciais nas universidades brasileiras são medidas temporárias voltadas a corrigir a distância entre pessoas negras e oportunidades justas na sociedade, e este entendimento tem se estendido ao mundo do trabalho.
Ou seja: as vagas afirmativas têm este respaldo e de outros documentos, como a própria Constituição Brasileira, por exemplo. O cenário social brasileiro também impulsiona a agenda de diversidade, com consumidores cada vez mais conscientes do papel das empresas para a transformação da sociedade. Uma pesquisa realizada em 2023 pela Oldiversity demonstrou que 67% dos consumidores brasileiros admiram e tendem a priorizar marcas que apoiam a diversidade.
No campo econômico, diretrizes de DE&I para grandes empresas e empresas de capital aberto já são uma realidade, como as exigências da Bolsa de Valores. A tendência é que a exigência ao atendimento de critérios de diversidade alcance cada vez mais os fornecedores destas empresas. Isso porque, em um cenário de alta competitividade, grandes empresas já sabem que diversidade e inclusão são imperativos estratégicos para o mercado do século 21, com ganhos econômicos comprovados por pesquisas robustas ao longo dos últimos anos.
Confira alguns dos benefícios da DE&I:
Assim, o atual contexto coloca o Brasil em uma posição única e quase oposta ao que vem acontecendo nos Estados Unidos.
“Vale ainda citar os avanços na agenda de sustentabilidade e diversidade na Europa. A União Europeia tem liderado a implementação de regulamentações rigorosas sobre ESG e diversidade, com destaque para a Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD), que exige que grandes empresas adotem medidas e divulguem informações detalhadas sobre riscos sociais e ambientais, incluindo aspectos de diversidade.“
Apesar dos avanços dos últimos anos, há ainda muito (ou tudo) a ser feito:
Isso para citar apenas alguns dos desafios que impactam diretamente os negócios.
Com tudo isso a fazer, não seria arriscado demais “descontinuar” as iniciativas e investimentos na criação de ambientes mais plurais?
Cuide das pessoas: Com a incerteza sobre a continuidade das ações de DE&I, muitos colaboradores estão receosos quanto a possíveis demissões ou quanto ao aumento da discriminação. Reforçar as ações de prevenção, como treinamentos, canais de denúncia e comunicação eficiente, é essencial para tranquilizar e apoiar colaboradores neste momento delicado.
☑️Esclareça dúvidas sobre o tema: É fundamental que lideranças e colaboradores compreendam, por exemplo, que diversidade e mérito não são conceitos opostos. As contratações podem ser inclusivas e, ao mesmo tempo, valorizar competências, desde que se reconheça que as condições são diferentes para muitas pessoas e que é necessário adotar iniciativas para corrigir desigualdades.
☑️Oriente para que a sua empresa reafirme compromissos com a diversidade: O momento exige consistência nas ações. Reafirmar os compromissos e as metas estabelecidas demonstra liderança e engajamento com as transformações que ainda precisam acontecer, tanto nas empresas quanto na sociedade. Este posicionamento tem sido adotado por grandes empresas, como Natura e Carrefour.
☑️Mantenha (ou comece a implementar) ações afirmativas: As ações afirmativas são indispensáveis para a construção de um ambiente de trabalho mais igualitário e diversificado. Elas desempenham um papel crucial na correção de desequilíbrios sociais e estruturais, oferecendo oportunidades reais para grupos que, historicamente, enfrentaram exclusão.
Exemplos dessas ações incluem programas de recrutamento específicos para mulheres em setores predominantemente masculinos, iniciativas voltadas para a inclusão de pessoas negras em cargos de liderança e o incentivo à contratação de pessoas com deficiência e LGBTI+.
Considerando o ritmo lento para inclusão destes públicos – que são maioria na sociedade mas minoria em posições estratégicas nas empresas – as ações afirmativas são não apenas importantes, mas urgentes. Iniciativas como vagas exclusivas ou prioritárias, especialmente em posições de liderança, assim como a realização de programas de desenvolvimento de talentos com foco em pessoas negras, mulheres, pessoas trans e pessoas com deficiência podem acelerar o alcance das metas e a transformação a realidade corporativa.
“Sem essas práticas intencionais e consistentes, as empresas correm o risco de perpetuar a exclusão e deixar de refletir a diversidade que compõe a sociedade.“
☑️Trabalhe para alinhar a estratégia de diversidade aos objetivos de negócios: Times diversos em ambientes inclusivos “são mais felizes, saudáveis e rentáveis”, e esta não é a minha opinião, mas sim a conclusão de uma das pesquisas da McKinsey sobre o tema. Alcançar esses resultados exige investimentos contínuos e tomada de decisões estratégicas que integrem os critérios de DE&I. Encerrar iniciativas de diversidade não deve ser uma opção neste momento, o que pode afetar a reputação das empresas diante de questionamentos da sociedade.
Acredito profundamente que a agenda de DE&I tem o potencial de transformar pessoas, negócios e toda a sociedade.
Para isso precisamos cada vez mais de lideranças inclusivas e conscientes, que sejam sponsors deste tema e exemplo de uma cultura inclusiva nas empresas.

Especialista em Diversidade, Equidade e Inclusão
CEO da Diverse Soluções